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Entrevista: “Não adianta falar que o professor precisa acolher se ele não tem espaço para ser acolhido”

Para Priscila Col Del Nero, cuidar da saúde emocional na rede de ensino exige olhar para estudantes e educadores e reconhecer os limites de uma escola já sobrecarregada

Por Jéssika Elizandra

Em junho deste ano, uma professora da rede municipal de São José dos Campos, no interior de São Paulo, relatou ter encontrado uma lâmina de vidro dentro do copo de água que havia pedido a um aluno durante uma aula. Segundo o relato da docente, estudantes teriam visto o que acontecia e, em vez de alertá-la, fizeram comentários sobre o conteúdo do copo. O caso foi registrado como tentativa de lesão corporal e três alunos foram suspensos.

O episódio é extremo, mas ajuda a iluminar uma questão que atravessa o cotidiano de muitas escolas: o que acontece com a saúde mental de quem ensina quando o ambiente escolar passa a ser também um espaço de conflitos, violência, sobrecarga e sofrimento?

E a discussão não se limita aos professores. Crianças e adolescentes também chegam à escola carregando questões emocionais, dificuldades de convivência, conflitos familiares e diferentes formas de sofrimento.

Para Priscila Col Del Nero, coordenadora de projetos da Evoluir, falar sobre saúde mental na rede escolar exige justamente ampliar o olhar. Priscila atua há anos na concepção e coordenação de projetos educacionais e de desenvolvimento integral e, na Evoluir, coordenou o Arte na Travessia, iniciativa de educação socioemocional desenvolvida em parceria com a rede municipal de ensino de Pindamonhangaba (SP), além de acompanhar de perto processos de formação e escuta de educadores.

A experiência de trabalhar diretamente com professores e redes de ensino permite que ela observe os desafios que chegam às salas de aula e reflita sobre os limites e as possibilidades da escola diante das questões de saúde emocional de estudantes e profissionais da educação.

Nesta entrevista, Priscila fala sobre esses desafios, o impacto da sobrecarga sobre os educadores, a importância dos vínculos e os caminhos possíveis para fortalecer o desenvolvimento socioemocional nas escolas.

O episódio de São José dos Campos chamou atenção pela violência extrema contra uma professora. Mas casos como esse são sintomas de um problema maior?

Sim. Acho que esse tipo de situação chama a atenção justamente porque é muito extremo, mas ela faz a gente pensar em uma série de outras situações que acontecem dentro da escola e que, muitas vezes, vão sendo naturalizadas.

A gente tem professores que estão muito sobrecarregados, com muitas demandas. E não é só a demanda pedagógica. É uma demanda emocional, social, de comportamento, de relação com as famílias, de lidar com situações que chegam para dentro da escola e que não são necessariamente questões pedagógicas.

Então, quando a gente fala de saúde mental na escola, precisamos olhar para o professor também. Em que estado esse professor está chegando na sala de aula? Como ele está emocionalmente? Que condições ele tem para lidar com aquela turma?

E, ao mesmo tempo, precisamos olhar para a criança. O que essa criança está trazendo? Que situações ela está vivendo? Como ela está conseguindo expressar o que sente?

Existe uma tendência de falar sobre saúde mental na escola pensando principalmente nos estudantes. O que se perde quando o professor fica fora dessa conversa?

Perde-se uma parte fundamental da questão. O professor é a pessoa que está ali, todos os dias, em contato com aquela criança. Ele também está vivendo aquela realidade. Então, não dá para pensar que vamos trabalhar as emoções dos estudantes sem olhar para as emoções de quem está conduzindo esse processo.

Mas existe um ponto importante: não podemos colocar mais uma responsabilidade sobre o professor. Ele já tem muitas atribuições. O professor precisa ensinar, planejar, avaliar, lidar com as famílias, com as diferentes necessidades dos estudantes. Se a gente chega dizendo “agora você também precisa cuidar da saúde mental dessas crianças”, sem oferecer condições e ferramentas, isso pode se transformar em mais uma fonte de sobrecarga.

Por isso, quando pensamos em educação socioemocional, precisamos pensar também em espaços de escuta e formação para os educadores. Ninguém oferece o que não tem.

E o que essa sobrecarga provoca no cotidiano escolar?

Ela pode afetar a relação do professor com os estudantes, a própria percepção que ele tem do seu trabalho e a capacidade de lidar com situações difíceis.

E existe também uma questão de identificação. Muitas vezes, o professor olha para uma situação de conflito em sala e pensa: “isso está acontecendo só comigo”. Quando ele tem a oportunidade de conversar com outros professores em um espaço adequado para isso, percebe que muitas daquelas dificuldades também fazem parte da experiência dos colegas. Essa troca é muito importante!

Foi algo que apareceu para mim com muita força em experiências que tivemos com professores: quando eles começam a se escutar, eles também começam a elaborar melhor aquilo que estão vivendo.

Então, a escuta entre os próprios educadores pode ser uma ferramenta de cuidado?

Com certeza. Eu acho que a escuta qualificada e a troca entre os professores são fundamentais.

Quando eles compartilham experiências, conseguem perceber que aquela angústia não é necessariamente individual. Às vezes, o que acontece na sala de uma professora também acontece na sala da outra. E essa percepção cria empatia entre os próprios educadores.

Em formações que fazemos, isso fica evidente. Eles vão se escutando e dizendo: “o que acontece na sala dessa professora também acontece na minha”. A partir daí, começam a pensar juntos sobre o que fazer, como fazer, como lidar com determinada situação.

A troca deixa de ser apenas uma conversa e passa a ser também uma forma de elaborar aquilo que está acontecendo.

E quando falamos dos estudantes, quais sinais mostram que a escola está diante de uma questão que vai além da aprendizagem?

Acho que um dos grandes desafios é justamente não separar completamente aprendizagem e desenvolvimento emocional.

A criança chega à escola inteira. Ela não deixa suas emoções do lado de fora da sala de aula. Então, dificuldades de convivência, conflitos, isolamento, mudanças de comportamento, dificuldade de se expressar, tudo isso provavelmente vai aparecer no cotidiano escolar.

Mas é importante fazer uma distinção: não é responsabilidade do professor diagnosticar uma criança. Ele precisa ter condições para perceber que alguma coisa está acontecendo e saber como acolher, conversar, encaminhar e buscar apoio quando for necessário.

A escola não substitui a família, os serviços de saúde ou os profissionais especializados. Mas ela pode ser um espaço muito importante de observação, de proteção e de construção de vínculos.

Você mencionou os vínculos. Por que eles são tão importantes quando falamos de saúde emocional e aprendizagem?

Porque é muito difícil a criança aprender quando não existe uma relação de confiança. A gente ouviu isso muitas vezes dos próprios professores. Quando o vínculo melhora, a relação com o estudante muda. E, quando a relação muda, a possibilidade de aprendizagem também aumenta.

Isso não significa que o professor precise ser amigo do aluno ou resolver todos os problemas dele. Significa que a criança precisa sentir que existe um adulto naquele ambiente que a reconhece, que a escuta e que estabelece limites de uma maneira respeitosa. Vínculo não significa ausência de limite. Pelo contrário: segurança também é saber quais são os limites.

Nesse sentido, trabalhar educação socioemocional é ensinar a criança a falar sobre seus sentimentos?

É mais amplo do que isso. É criar oportunidades para que ela possa reconhecer o que sente, mas também para que consiga se expressar, ouvir o outro, lidar com diferenças, resolver conflitos e construir relações. E nem sempre a criança vai conseguir fazer isso falando.

É por isso que as linguagens artísticas podem ser tão potentes. Uma criança pode não conseguir explicar em palavras uma determinada emoção, mas pode desenhar, criar uma história, dançar, brincar, representar um personagem. Essas linguagens ampliam as possibilidades de expressão.

Mas como fazer isso sem transformar a escola em responsável por resolver a saúde mental das crianças?

Esse é um cuidado fundamental. A escola não pode ser transformada em consultório. E o professor não pode ser transformado em psicólogo.

A saúde mental é uma questão que envolve família, saúde, assistência social, comunidade, políticas públicas e uma série de outros fatores. 

O papel da escola é outro. Ela pode contribuir para criar um ambiente mais acolhedor, para fortalecer vínculos, para desenvolver habilidades de convivência e para perceber situações que precisam de atenção.

Mas precisamos também olhar para as condições que damos para que isso aconteça. Não adianta falar que o professor precisa acolher se ele não tem espaço para ser acolhido. Não adianta pedir que ele desenvolva determinadas competências com os estudantes se não oferecemos formação e ferramentas para isso.

O que uma rede de ensino pode fazer, então, diante desse cenário?

Primeiro, escutar. Escutar os professores, os estudantes, os gestores. Entender o que está acontecendo naquela rede antes de chegar com uma solução pronta.

Depois, pensar em formação e em ferramentas que possam ser incorporadas à realidade da escola sem criar uma carga impossível para o professor.

E também trabalhar de maneira preventiva. Não esperar que aconteça uma situação extrema para começar a falar de convivência, respeito, expressão das emoções e vínculos.

Acho que precisamos construir uma cultura em que falar sobre essas questões faça parte do cotidiano escolar, e não apareça apenas quando existe uma crise.

É possível fazer isso de maneira integrada ao currículo, sem criar mais uma disciplina ou uma obrigação para o professor?

Sim, e considero esse um dos caminhos mais interessantes. O desenvolvimento socioemocional não deve estar separado de tudo o que já acontece na escola. Ele pode aparecer na literatura, nas artes, em uma atividade de Ciências, em uma discussão em sala, em um projeto, em uma situação de conflito que precisa ser mediada.

Quando conseguimos integrar essas dimensões ao cotidiano, elas deixam de ser mais uma coisa que o professor precisa “dar conta” e passam a fazer parte da própria experiência de aprendizagem.

Você consegue citar uma experiência em que esse olhar tenha funcionado na prática?

O Arte na Travessia, que desenvolvemos em Pindamonhangaba, nasceu justamente de uma demanda da Secretaria de Educação relacionada à educação socioemocional.

E uma das coisas mais importantes que essa experiência reforçou para mim é que não existe uma solução única, que sirva para todas as redes de ensino.

Cada secretaria tem uma realidade, cada território tem seus desafios e cada comunidade escolar apresenta necessidades diferentes. Por isso, antes de pensar em uma solução, é fundamental ouvir quem está vivendo aquela realidade: gestores, professores e, sempre que possível, os próprios estudantes.

Foi a partir dessa escuta que conseguimos construir, em Pindamonhangaba, uma proposta que dialogasse com as necessidades daquela rede. E acho que esse é um princípio que vale para qualquer projeto educacional: não adianta chegar com uma solução pronta se ela não conversa com o contexto em que será aplicada.

No Arte na Travessia, encontramos na arte e na formação dos educadores caminhos para trabalhar questões socioemocionais com as crianças. Mas o ponto de partida foi entender o que aquela rede precisava.

É preciso escutar a realidade de cada território, construir uma proposta adequada a ela e trabalhar em parceria com quem está na escola todos os dias.

Então, se você pudesse resumir o que as escolas precisam para avançar nessa discussão, o que diria?

Eu diria que precisamos cuidar de quem cuida e criar espaços para que as crianças possam se desenvolver integralmente.

E isso passa por escuta. Escutar os professores. Escutar as crianças. Escutar as redes.

A escola não vai resolver sozinha a questão da saúde mental. Mas ela pode ser um espaço muito potente de proteção, de desenvolvimento e de construção de vínculos.

Quando damos condições para que o professor esteja bem, para que ele seja escutado e para que tenha ferramentas adequadas, também aumentamos as possibilidades de que ele consiga criar com seus alunos espaços mais seguros para sentir, criar, conviver e aprender.

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