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A escola pode ser parte da solução para a saúde mental na infância

Em Pindamonhangaba (SP), projeto da Evoluir usa arte e formação de professores para trabalhar o desenvolvimento socioemocional de crianças

Por Jéssika Elizandra

As internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças de 5 a 9 anos cresceram 98,3% entre 2020 e 2025 no estado de São Paulo, maior aumento proporcional entre todas as faixas etárias analisadas. No mesmo período, os procedimentos clínicos ambulatoriais para essa faixa etária cresceram 186,1%, chegando a 1,19 milhão de atendimentos em 2025. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Os números, por si só, não significam que a saúde mental das crianças tenha piorado na mesma proporção. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo apontam que o crescimento também pode estar relacionado à ampliação do acesso aos serviços e a uma demanda que historicamente permaneceu reprimida. Ao mesmo tempo, dificuldades de aprendizagem, comportamento e socialização tendem a se tornar mais evidentes justamente no início da vida escolar.

É um cenário que coloca uma questão importante para a educação: como a escola pode contribuir para que crianças desenvolvam recursos para compreender o que sentem, construir vínculos e conviver com os outros?

Em 2023, a equipe da Secretaria da Educação de Pindamonhangaba (SP) já se fazia essa pergunta, e trouxe esta mesma questão para a Evoluir. 

Foi assim que, em 2024, nasceu o Arte na Travessia, iniciativa de educação socioemocional desenvolvida com patrocínio da Novelis por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. O projeto combina arte, formação de educadores, desenvolvimento emocional e aprendizagem.

Arte como meio, fim e começo

O Arte na Travessia foi estruturado a partir de cinco dimensões de desenvolvimento: mergulhar em si, ter voz ativa, fluir em equipe, entender o mundo e agir consciente.

A proposta articula temas como autoconhecimento, autocuidado, empatia, cooperação, argumentação, pensamento crítico e responsabilidade social por meio de diferentes linguagens artísticas.

A arte, nesse contexto, não aparece apenas como uma atividade complementar. Ela funciona como uma linguagem para que a criança possa observar, experimentar, criar, expressar sentimentos, estabelecer relações e construir novas formas de interpretar o mundo.

O projeto trabalha com literatura, música, dança, desenho, teatro e outras expressões artísticas. Entre as experiências propostas estão atividades de autorretrato e autoconhecimento, jogos das emoções, jogos simbólicos, investigação poética e atividades relacionadas à expressão, comunicação, cuidado e natureza.

A formação também se apoia na Aprendizagem Baseada em Projetos e na abordagem triangular do ensino de Artes, que articula os movimentos de ver, contextualizar e fazer.

E há uma particularidade importante: o projeto não foi pensado para professores especialistas em Artes. A ideia é que as linguagens artísticas possam atravessar diferentes áreas do conhecimento.

“A professora de Língua Portuguesa, sendo ela especialista ou trabalhando como professora regente até o quinto ano, abre um livro, dá de cara com uma obra literária, artística. E como ela integra e consegue usar aquelas imagens, a poesia, aquela arte dentro da sua disciplina?” explica Priscila Col Del Nero, coordenadora do Arte na Travessia na Evoluir. 

Assim, uma obra, uma música, uma imagem ou uma experiência de criação podem se tornar pontos de partida para trabalhar conteúdos curriculares e, ao mesmo tempo, estimular a expressão e a reflexão das crianças.

Educadores no centro da conversa

Para que isso aconteça, porém, existe uma condição importante: o professor precisa estar no centro da equação.

Formações que simplesmente acrescentam novas demandas ao cotidiano escolar correm o risco de se tornar mais uma obrigação para profissionais que já lidam com salas de aula complexas, múltiplas necessidades e uma rotina intensa. Por isso, no Arte na Travessia, a formação não se restringiu à apresentação de ferramentas. 

Os encontros abriram espaço para que os professores olhassem para suas próprias experiências, compartilhassem dificuldades e encontrassem nos colegas situações semelhantes às que vivenciavam em sala de aula. A dinâmica permitiu que os educadores percebessem que determinadas dificuldades não eram individuais.

“Eles, se escutando e escutando o colega, iam elaborando e organizando as angústias, o que fazer, como fazer, e criando ali também uma empatia, uma compreensão: ‘o que acontece na sala dessa professora também acontece na minha!’. Acredito que Priscila.

Outra percepção recorrente entre os educadores foi a melhora da relação com os estudantes depois desse processo de olhar para si e para as próprias práticas. “Cria-se um vínculo entre o professor e os alunos, pois o profissional consegue trazer pra criança essa questão dela ter autonomia, dela poder falar, poder se colocar, já que muitas vezes, em casa ou na sociedade mesmo, ela não tem essa voz, ela não consegue”, explica Roselaine de Almeida, gestora regional de Educação de Pindamonhangaba. Isso é importante porque se não há vínculo, é muito difícil haver aprendizagem.

Nesse sentido, trabalhar educação socioemocional não significa simplesmente ensinar uma criança a identificar se está triste, com raiva ou com medo. Significa também criar situações em que ela possa expressar o que sente, ouvir o outro, experimentar diferentes formas de criação e construir relações de confiança. 

A escola também ensina quando cria espaço para sentir e criar

Essa perspectiva ajuda a entender porque a arte ocupa um lugar tão importante no projeto. Uma criança nem sempre encontra palavras para explicar o que está sentindo, mas pode desenhar, dançar, inventar uma história, interpretar um personagem, observar uma imagem ou criar uma música.

Essas experiências não substituem acompanhamento psicológico ou outros cuidados especializados, quando eles são necessários. Podem, porém, ampliar os repertórios de expressão e convivência disponíveis no cotidiano escolar.

Essa abordagem, inclusive, conversa com orientações recentes do próprio Ministério da Educação. Entre as expectativas estabelecidas para a promoção da saúde mental nas escolas estão expressar emoções de forma saudável, reconhecer sentimentos em si e nos outros, desenvolver empatia e aprender a resolver conflitos de maneira pacífica.

É justamente nessa fronteira entre aprender, conviver e se expressar que o Arte na Travessia encontra seu espaço.

Mas é responsabilidade da escola?

A discussão sobre desenvolvimento emocional na infância ganhou espaço justamente porque os desafios enfrentados pelas escolas também estão mudando.

Os dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo mostram o crescimento da procura por atendimento relacionado a transtornos mentais entre crianças. Especialistas destacam, entre outros fatores, a dificuldade de acesso historicamente existente aos serviços e o fato de que questões de aprendizagem, comportamento e socialização podem se tornar mais visíveis com a entrada na vida escolar.

Ao mesmo tempo, a escola continua sendo um espaço de convivência cotidiana. É onde a criança aprende conteúdos, mas também negocia regras, faz amizades, enfrenta conflitos, descobre diferenças, experimenta novas linguagens e constrói parte importante da sua relação consigo mesma e com o mundo.

Por isso, iniciativas de educação socioemocional podem contribuir para ampliar as possibilidades de trabalho dos educadores, sem transformar a escola em consultório e sem colocar sobre os professores a responsabilidade individual por problemas que são sociais, familiares, econômicos e também relacionados às políticas públicas de saúde.

Essa discussão já aparece, inclusive, em políticas públicas. Em uma matriz atualizada em 2026, o Ministério da Educação inclui entre as expectativas de aprendizagem para a Educação Infantil o reconhecimento e a expressão saudável das emoções, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, a empatia e a resolução pacífica de conflitos.

A questão, portanto, não é fazer a escola dar conta de tudo. É reconhecer que ela pode ser parte de uma rede de proteção e desenvolvimento, quando recebe condições, formação e ferramentas adequadas para isso.

Impacto

Em duas edições, mais de 80 educadores, de 47 unidades de Ensino Fundamental 1, participaram do Arte na Travessia. Essas escolas também receberam, como doação, 3.600 livros. Ao todo, 13.695 estudantes foram beneficiados pelo projeto.

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Jéssika Elizandra